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domingo, 21 de junho de 2009

Ruta "Pedals de FOC" - Dia 1

Esta crónica relembra uma passeata que fiz pelos Pirineus em Junho deste ano, a mitica "Ruta Pedals de FOC", percorrendo a bela zona do Parque Natural de Aigüestortes e Sant Mauriç di Estany...
Uma foto-report/crónica das minhas aventuras durante esses magnificos dias...

Os dias que antecederam a partida a 21 de Julho podem ser lidos aqui
[Crónica] Pedals de FOC - Dia X
[Crónica] Pedals de FOC - Dia 0

O relato completo, mesmo completo, também está por lá se quiserem perder tempo...
Demorou um pouco a sair do rascunho, mas já cá está.
Espero que gostem tanto de o ler como eu gostei de o escrever!
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21 Junho 2009
Viella – Gotarta


Depois de um pequeno-almoço principesco no Hotel Pirene, com tudo que me coube no bucho e a que tinha direito, saio para a rua à espera do BUS que nos levaria até à outra vertente do túnel de Viella que percorre cerca de 6km por dentro das entranhas da montanha para sair a sul, junto a Espitau de Viella, e que chegaria às 08h00 em ponto!

Prontos estávamos mais de uma dúzia de parceiros de aventura. Um casal vindo de Barcelona e que montava num tandem MSC de dupla suspensão muito bonita, um rapaz de Madrid que iria fazer a travessia nas mesmas etapas que eu, e um grupo grande, estilo familiar, que englobava um casal de Valência – o José e a Amparo – uma família inglesa fixada também em Valência há 27 anos e que tinha como anfitrião um senhor do mais simpático que conheci de graça Ken Hogan, as suas duas filhas, Suzanne e Kate, e ainda Alexander e Kharim, este último também de Madrid.

No BUS apenas falei com o rapaz madrileno que por curiosidade é amigo e companheiro do espanhol que me cedeu os tracks da PdF – Edição de 2007, a partir do foromtb – Isto de dizer que o Mundo é um T0, não é à toa…
O moço não queria acreditar que tinha feito 1300km para ir fazer a Ruta! Não tinha conhecimento de nenhum português a fazê-lo até à data.
Dizia ele que era preciso “tener muchas ganas de hacerlo!”

Era bem verdade! - Há anos que sonhava com aquilo.

A amena cavaqueira serviu na perfeição para não perceber os 25 minutos de viagem que demorou o pequeno autocarro até parquear no Parking del Bosque de Conangles, onde está situado o km0, início oficial da travessia.

Os últimos preparativos, como suspender os alforges no suporte, fixar tudo, confirmar que está tudo ok, resetar dados do gps, fumar o cigarrinho da praxe, etc, aconteceram num ápice e depois de “cravada” a solene foto a uma das companheiras – que ainda não conhecia – era hora de me fazer ao caminho, atrás do “tio” madrileno e do casal do tandem.


Et ça commence! Foto por Kate Hogan

Os primeiros quilómetros foram ladeando o rio Salenques, por um GR belíssimo, obrigando logo nos esforços iniciais, os menos aptos a carregarem as montadas às costas já que o trilho tinha zonas a pedir bastante das unhas, com muita pedra, fazendo deste um inicio mágico…
Mas a determinada altura o trilho funde-se mesmo por entre as pedras e o rio que transborda da sua clausura, obrigando-nos aos quatro a estudar várias hipóteses até darmos com a certa para conseguir seguir em frente.


Parte inicial do percurso junto ao rio Salenques…

A “pareja” de Barcelona e o “tio” madrileno que seguia também em solitário…

Na ponte de Forcat…

Depois de passada a ponte de Forcat, parei para vestir algo mais fresco e para saciar outras necessidades mais básicas ainda.
O Livro de Ruta mostrava-se verdadeiramente simples de seguir e depois de habituado ao folhear das páginas a coisa estava perfeitamente dominada.
Depois de aliviado volto ao pedal para atravessar a povoação de Forcat, seguir direito a Vinyal até Ginast, sempre através de paisagens de prados e campos do vale.
Depois de passar esta última povoação entrei num dos primeiros single-tracks do dia e dos dias que se seguiram – os senderos, como em Espanha são conhecidos. Ao inicio um carreiro de pé posto, depois alargava um pouco, mas mantinha-se serpenteante ladeando os campos e que me levaria até pertinho do Santuário de Riupedrós. Muito bom!

Daí até à povoação de Vilaller foi um tirinho.


Villaler…

Os primeiros senderos, como por aqui são conhecidos…

Desde o Barranco de Vinyassola que vinha a subir progressivamente. A povoação de Vilaller estava situada a 986m de altitude e o Coll de Serreres, passagem obrigatória para quem pretender mudar de vale, 370m acima desta, a 1354m de altitude. Uma subida de 3.5km em bom piso no meio de densos e frescos pinhais, que iam deixando aqui e ali ver para lá do denso arvoredo, mostrando um horizonte difícil de descrever.
À minha esquerda ia descobrindo a crista rochosa onde se encontram os picos do Tossal de l’Orri, Cap de Concesse e Tossal de les Roies de Gardet, todos acima dos 2300m de altitude…

Vistas ao longo da subida. O pico da direita é o Tossal de l’Orri…

A chegar à passagem para o Vall d’Boí, o Coll de Serreres, a 1354m…

Chegada a hora de começar a descer algo me obrigou a parar.
A paisagem era de tal maneira incrível que demorei bastante mais que o necessário para me recompor da subida. As cores eram tão vibrantes que pareciam animadas de vida própria e os contrastes aconteciam com uma genialidade desumana. Brotava de todo o lado uma energia impossível de decifrar.
Os trilhos mudavam rapidamente de cinzento para branco, para depois se tornarem vermelhos, tudo isto salpicado de amarelos, muitos verdes e doses massivas de azul. Os peculiares sons que me afagavam os ouvidos formavam a banda sonora de uma palete de cores infindável mesmo para o mais criativo dos artistas. Um verdadeiro festim para os sentidos da alma!

As cores vibrantes e poderosas e as vistas exuberantes que se estendiam até onde a vista alcançava…

Descendo até Llesp completamente deslumbrado com a paisagem, acabei por me perder. Ou melhor não me perdi, foi mais o facto de duvidar se estaria, ou não, no caminho certo. E afinal até estava!
Mas tal desatenção teria um preço deveras doloroso – agora sim, já sei o que sentem os animais quando tocam nas vedações electrificadas…
Depois de passar uma primeira vez a dita cerca – a electrificada pois claro – que faço com extremo cuidado, tive que voltar a passar no sentido inverso pois achava que estava mal.
Volto para trás, volto a abrir e volto a fechar a cerca, segurando no único sitio possível e evitando qualquer contacto com os varões metálicos que se encontram animados de vida “eléctrica” e sigo uns metros atrás à procura de algum desvio mais óbvio que aquele que tomara. Subo uns valentes metros da descida que tinha acabado de fazer e nada de outros caminhos.
Tinha que ser aquele! – Acabo por deduzir.
Volto para baixo, novamente até à cerca, agora confirmando que realmente era mesmo aquele o caminho que o Livro indicava.
Paro em frente à cerca, volto a abri-la novamente, avanço a bike sem desmontar e tento – este foi o meu erro – tentar fechar a cerca com a mão atrás das costas e…

Ahhhhhhhhhhhhhh…

Os segundos iniciais foram surreais, deixando-me bastante desnorteado até perceber exactamente o que se tinha passado. A dor flamejante na ponta do dedo e a dormência do corpo eram por si só demais evidentes.
As vacas olhavam para mim completamente incrédulas. Deduzo que rindo à grande e à Francesa. Neste caso, à Catalã…

“Vacas(!)” – Lanço para o ar em tom de escárnio.
“Um gajo quase morre aqui e vocês riem-se” – Continuo a barafustar enquanto descalço a luva para me certificar que não havia queimaduras.

A ponta rosácea e latejante do meu dedo mindinho era uma cruel testemunha da minha incrível burrice. De um momento para o outro esqueci-me que aquela m**** dava choque e sem ver o que estava a fazer acabei por tocar com a ponta do dedo no varão metálico. Os pés em cima da chapa foram a cereja no topo do bolo, permitindo a descarga eléctrica passar livremente pelo meu corpo até se perder na terra… Foram meia dúzia de Volts com certeza, mas deixaram-me completamente abananado!

Depois do susto inicial e quase totalmente recomposto acabo por passar pelo cemitério de Llesp e uns metros mais à frente entro na bonita povoação.


Lugar do “Choque Eléctrico”…

Povoação de Llesp…

Logo a seguir à povoação de Llesp entramos numa pequeno caminho, com cerca de 11 quilómetros de extensão, todos eles de uma beleza avassaladora.
O seu nome, Camí del Aígua, quer dizer “Caminho da Água” e percebe-se bem porque, já que todo ele percorre as sinuosas margens de um bonito mas rebelde curso de água. Um pequeno oásis de tranquilidade e sombra.

Todo o trilho é perfeitamente ciclável e algo único.
Além dos barulhos provenientes do meu conjunto, tudo o resto era harmónico e perfeito. Um cantinho que fiquei feliz por conhecer.


Camí del Aígua…

O trilho desemboca directo na estrada que leva a Iran, a partir de onde seriam precisos mais 2.5km de subida para vencer os 248m de desnível vertical que me separavam de uma Coca-Cola fresquinha!
Iria também fazer o primeiro controlo da travessia neste mesmo pueblo.
Os controlos consistem em carimbar o Livro de Ruta em determinados lugares específicos e que são obrigatórios cumprir se pretendemos o Jersey de Finisher. E em Iran esse controlo seria o C2, na Casa Joanot.


Povoação de Iran ficando para trás…

Desde Iran tinha mais 3km de subida pela frente.

“1.5km de rampas duras e 1.5km progressivos” – Apontava o livrinho.
“E que raio quererá isto dizer?” – Lembro-me de pensar.

Sentado à porta da Ermida trato pois de atacar o que trazia de almoço. Uma sandes ainda resistia! Mais uma banana e uma maça, uma barrita de geleia e muita água. Como estava quase no final da tirada de hoje e até lá seria sempre a descer, dei-me ao luxo de me perder por um bocado naquela imensidão de espaço.


Ermita de Sant Salvador, no Coll de mesmo nome, a 1399m de altitude…

Descida em estradão de gravilha para a povoação de Gotarta…

Gotarta…

À porta da Casa Vilaspasa de Mercês. Uma anfitriã super, parecia nossa mãe…

Dar com o sítio de pernoita não foi fácil, mas nada que duas voltas à vila não resolvessem. Ao tocar à campainha, surge à porta minutos depois, uma senhora magrinha, dona de uns olhos muito expressivos, morena e de pele encortiçada, muito simpática que antes de me dar tempo de dizer o que quer que fosse me atira esta frase:

“Olá! Então deves ser tu o Português!” – E abre-me em simultâneo um sorriso autêntico de orelha a orelha.

Fiquei pregado no chão! - Depois de alguma conversa fiquei a saber que já se tinha cruzado com o rapaz de Madrid e que este lhe havia dito que vinha um Português na ruta e que seria eu que iria dormir ali. Os meus companheiros de aventura faziam questão de me apresentar como sendo “El Português que está haciendo la ruta”, mesmo quando chegavam primeiro que eu aos controlos ou alojamentos.
Sinceramente, este foi um dos factores que mais me fez vibrar, a sensação de ser bem-vindo em todos os lugares por onde passei e por quem tive oportunidade de travar algum diálogo, ainda que breve!

Além desta recepção tudo aquilo era simplesmente surreal. Literalmente tinha a casa só para mim. Mostrou-me o meu quarto e logo a dispensa – cheia de colas fresquinhas e cervejas geladas – a sala de convívio, a terraça, enfim. Pôs-me à vontade! Disse-me que o grupo grande também iria dormir ali e que queria descansar um pouco antes que eles chegassem e pergunta-me se eu podia abrir a porta se ela entretanto não acordasse com a campainha.
Acedi ao pedido e depois da merecida banhoca, fui lanchar para a terraça gozar de um fim de tarde perfeito, bem embrenhado nos Pirenéus.

Ao sair reparo que nenhum dos quartos tinha fechadura, muito menos chave. Inclusive o parque de “Bicis”, e à sua semelhança também a porta da rua era desprovida de qualquer dispositivo de tranca. Realmente ainda há sítios assim!

Perto das 17h (locais) começa a chegar a restante malta, a família Hogan e amigos.
Primeiro chegam Kate e o pai, desejosos de uma cerveja fresquinha que a Mercês, como adivinhando, trazia já para baixo junto com o seu grande sorriso. A restante malta tinha ficado a dormir a sesta junto à Ermida – afinal não fui o único a pensar no assunto – e tardaram cerca de 2 horas mais a chegar.

O jantar foi todo ele confeccionado pela dona da casa, com produtos da horta e posso-vos dizer que estava qualquer coisa de extraordinário.
Não sei precisar o que comi, pois eram tantos os mini pratos de especialidades da região que nem sei. Isto aliado ao facto de à mesa estarem 10 pessoas, todas de idades diferentes e de várias nacionalidades, falando desde Inglês passando pelo tradicional Castelhano até Catalão e Aragonês, deu ao ambiente uma atmosfera única, dificilmente igualável.


O final deste primeiro dia pautou-se por uns singelos 47.5km, com um acumulado de subidas de 1227m e 1592m de descidas, que percorri num total de 6h30, incluindo 2h15 de paragens.

Local de pernoita: Casa Vilaspasa

[Continua…]

domingo, 17 de maio de 2009

"Travessia do Sul" - Dia 4

" Travessia do Sul "
Um aventura em solitário por trilhos e caminhos do sul de Portugal.

17 De Maio 2009
Aljezur – Sagres


A última e mais aguardada tirada do meu passeio começou cedo. Depois de paga a despesa da estadia na tarde anterior, à saída dos portões do parque o relógio marcava as 08h05.

Os primeiros quilómetros foram pachorrentos, de ritmo calmo e compassado até à grande descida, que fiz tranquilamente agarrado aos travões, empurrado pelos quase 20kg de peso da minha menina.
Á semelhança do dia anterior rumei ao Castelo, trepando toda aquela empinada rua de empedrado, passando novamente pela igreja e seguindo adiante, parando ofegante a 20m do final, já completamente encharcado em suor, ardendo de calor.


Castelo de Aljezur ao longe…

Aqui já mais perto, mas comigo já apeado…

As vistas que tinha agora sobre Aldeia Nova…

Por uns estradões rápidos fui ganhando quilómetros e ritmo. O dia, à semelhança de todos os outros brindava-me a manha com um esplêndido céu azul, polvilhado de vez em quando com pequenos farrapos de algodão branco…
A mesma brisa, fiel, que me acompanhava há dias, continuava arrefecendo e mantendo dócil o quente dia.


Pelas 09h30 já cheirava a Algarve…

A determinada altura e depois de uma pequena elevação surgem magnificas as linhas de espuma brancas a recortar a acidentada costa contra uma paisagem de azul a perder no horizonte.


Na chegada à costa e ao mar…

Toda uma paisagem sublime...

À medida que me ia aproximando da costa o terreno ia ficando com desníveis cada vez mais acentuados.
Por várias vezes durante o dia me veria a descer à cota 0 para depois voltar a conquistar muitos metros verticais às paragens daquela zona… Um sobe e desce constante que já não seria fácil numa jornada de btt sem peso excessivo na traseira, junto com umas pastilhas do travão traseiro, essas sim, a roçar a exaustão…

No entanto todo um mundo novo se ia mostrando espectacular, abafando as dores nas pernas que já pontuavam cada pedalada fora da cadência. A minha mente viajava mais depressa que as minhas cansadas pernas, deitando-se a adivinhar as paisagens e os trilhos que se seguiriam, mas sempre perdendo no que toca a originalidade das cores e formas, no que toca aos caprichosos cheiros e sons, no que refere às sensações que pode proporcionar a alguém que assim o deseje, que assim o anseie.


Zonas completamente desabitadas…

Vales de beleza discreta…

Não foi rápida a chegada à Carrapateira, mas foi soberba a curta viagem. Tinha valido cada minuto das duas horas de pedal que já trazia quando pelas 10h05 entrei na vila da Carrapateira, onde contava tomar o café da manha, coisa que pela hora matutina e percurso escolhido não me tinha sido possível tomar ainda. Além de que vinha a contar com um café na entrada da vila que também se encontrava fechado.

A praia da Carrapateira providenciou das melhores vistas, daquelas que nos fazem perder o sentido do tempo e nos carregam embalados pela beleza e singularidade do momento.
Calmamente, aproveitando cada segundo de deleite, vou subindo o pequeno troço alcatroado que me eleva acima do ombro norte da praia. Uma enorme duna de areia cortada por uma estreita tira cinzenta, escaldante sob o sol que subia ligeiro no céu azul.
A paisagem era sublime.
O mar reflectia um azul intenso, escuro. Rebelde. Debatia-se na orla costeira com evidente fulgor, para evidente gosto dos surfistas que nas suas ondas desenhavam leques de água e se deixavam apanhar por elas para depois, muito rápidos, lhes escapar acelerando, para logo depois executarem novo leque de água à saída do tubo e assim sucessivamente até esta perder força ou o surfista perder o jogo e cair da sua prancha. Onde todos naturalmente se voltavam a agarrar para de novo tentarem a sua sorte, independente do sucesso ou fracasso anterior. Está à vista de todos que o que interessa mesmo no final não é ganhar ou perder, mas sim as vivências que vamos tirando desse caminho que se percorre. Os surfistas nas suas ondas como todos nós na vida… Só não vê quem não quer.


Á entrada da vila da Carrapateira…

Uma subidinha que pouco ou nada custou devido às compensadoras vistas…

Carrapateira…

Mais do mesmo. Um lindo dia, com uma bela paisagem…

Pelas narinas entrava-me um cheiro inebriante a mar, a sal. Àquela maresia tão própria das costas violentas, inóspitas, que fica no ar depois das ondas se debaterem contra as escarpadas falésias, investida após investida, selvagens.
Depois de uma curva no caminho a natureza volta a suplantar a minha poderosa imaginação, situação aliás habitual mas que me agrada enormemente.
Toda ela uma bênção para os olhos.
Desde a zona dos viveiros, ou costa dos percebes, ali à beirinha daquele enorme azul que se extinguia apenas onde a vista alcançava, estava uma linha de costa que teria que contornar. Este pedaço de percurso deixou-me bêbado com tanta luz, com tanto para ver, daquelas vistas iguais aos postais pirosos que vemos à venda para turistas, deixando-me num estado de espírito que muito dificilmente encontraria palavras que o conseguissem descrever de forma conveniente e fiel.


Uma curva no caminho…

Reservava estas vistas para sul…
Uma costa fabulosa…

Cheia de pequenas pérolas…

A praia do Amado, onde bebi o tão ansiado café numa roulotte que por lá estava estacionada, surgiu tranquilamente no final de uma curta descida. Até um geladinho comi aqui enquanto fazia um breve descanso… Voltei a carregar de água, mais 1,5l. Desde as 08h00 da manhã já tinha bebido mais de um litro de água. Sim porque a garrafa entrou inteira para dentro do CamelBak, não sobrando uma gota no recipiente original uma vez finalizado o processo.
Faltavam quinze minutos para as onze da manha quando me pus de novo ao caminho. Ainda não o sabia mas estaria prestes e enfrentar os mais duros quilómetros de toda a jornada e refiro-me à jornada completa.
Em parte alguma do percurso tinha tido que me aprumar tanto em cima da burra, mesmo quando a empurrava e puxava, ou me via quase a perder-lhe o controlo, como aconteceu algumas vezes antes. As dificuldades que se seguiram foram as mais sérias. Embora algumas me tenham feito sentar o rabo no chão a rir sozinho depois de ultrapassadas, outras houve que me deixaram pequenino, pequenino, durante os minutos seguintes. Outras, verdadeiro mel para os sentidos.
E tudo isto num só dia de existência. Não havia eu de ficar moído no final…

Só que disto eu nada sabia ainda.
Destas dificuldades eu tinha somente uma vaga ideia, remota, de relatos lidos na internet, de algumas fotografias que circulam nesse universo paralelo ao nosso.
Haveria de me confrontar com elas, uma de cada vez, há medida que se me iam mostrando. E é tão boa esta sensação da aventura, do mistério, da adrenalina a correr forte nas veias, dos músculos vibrantes, de sentir o espírito vivo e alma aberta ao mundo, verdadeiramente juntos num só…
Da liberdade completa e total.


Na praia do Amado, à espera do cafezinho…

Dois minutos depois de sair daqui estava num mundo distante. Num mundo de trilhos alucinantes e vertiginosos, suspensos nas falésias a largos metros da fina areia da praia. Trilhos pedestres pendurados em encostas demasiado inclinadas para permitirem sequer um erro, uma desatenção. Com inclinações tais que me cheguei a ver obrigado a ir a pé porque o crank esquerdo batia na pendente de terra empurrando-me para fora, para a direita e para o vazio. Não foi mais fácil ir a pé mas foi definitivamente mais seguro, já que assim se algo caísse seria só a minha menina, ao contrário do que aconteceria na primeira hipótese. No entanto antes da curva que desaparecia no topo da falésia já esmagava novamente os pedais…

Trilhos na praia do Amado…

Tomei o café ali em cima…

Depois de sair das areias. Visível o trilho que corta diagonalmente a encosta…

Do melhor…

Lindo, lindo, lindo! Mas estranhamente assustador…

Depois de ultrapassada a parte mais inclinada voltei a segurar a guiador entre as mãos, mas desta feita de rabo sentado no selim e apenas voltei a desmontar porque ainda mantenho aquele espírito de auto-preservação, natural a todos os seres vivos, e que felizmente me mantém capaz de ajuizar correctamente algumas situações, embora nem todas deva admitir.
O trilho corria sinuoso bem no topo da falésia. Exposto.
Noto num relance que a minha passagem naquele ermo caminho não tinha sido noticiada por ninguém das poucas pessoas que se passeavam na beira da areia molhada.
Durante aquele espaço de tempo, o mundo pareceu realmente parar. Já havia experimentado esta sensação antes, na montanha, em situações de compromisso semelhantes. Aliás foi como encarei o obstáculo, como uma passagem mais técnica de montanha, que teria que vencer sem outro desfecho possível.
De repente só ouvimos o nosso coração, o nosso suor enquanto nos molha a fronte e nos diz: “Tu consegues!”.
Tudo à volta se imobiliza num suspiro de silêncio enquanto nós tomamos as acções que temos que tomar, sem raciocinar em demasia, deixando pouca margem de manobra ao cérebro para nos baralhar os instintos, para nos confundir com dúvidas e incertezas.
De músculos tensos, com todos os sentidos alerta, e depois de encher de ar o peito duas vezes, como quem ganha coragem, enfrento então esse pequeno pedacito de caminho, mas que pelas condições que apresentava reunia tudo para me fazer satisfazer as minhas mais básicas necessidades.


Para mim a parte mais complicada devido ao estado do trilho, parcialmente destruído, e que me obrigou novamente a desmontar…

A uma altura pouco aconselhada a um deslize é melhor não facilitar…

Vistas de arrepiar...

E para compensar do esforço lá estavam sempre as preciosas vistas…

A subir muitos metros seguidos desde a cota 0 novamente…

Entretanto, as cores e cheiros do mundo que me rodeavam eram, por si só, capazes de me fazer esquecer a dureza dos quilómetros que ia acumulando nas perninhas. Felizmente que o piso se mantinha capaz de boas médias, permitia rolar mais ou menos rápido, consoante o motor deste binómio assim o conseguia.

De qualquer forma, os trilhos não eram só caminhos fáceis. Esta foi a jornada que mais me obrigou a navegar atento ao GPS, obrigando-me muitas vezes a perscrutar o caminho a pé, antes de me fazer a ele, principalmente quando não lhe via o final, ou como em algumas partes houve, que por metros o trilho desaparecia para ir surgir mais à frente perdido no mato rasteiro de mil e uma cores.
Parava, desmontava, ia ver do caminho. Voltava atrás, pegava na bicicleta e lá me fazia ao caminho, como e por onde podia.
Assim foi acontecendo até determinada altura em que me surge pela frente uma descida que dificilmente esquecerei tão cedo.
Fiquei parado no topo alguns minutos, no “vai-não-vai”, tentando analisar se tinha capacidades de o fazer montado, em segurança.
Não tenho por hábito desmontar em descidas, mas esta assim o obrigou, e em boa hora tomei tal opção. O que se passou a seguir foi, sem margem para dúvidas, o momento mais cómico de toda a odisseia. A estar alguém a ver e por certo que, por esta hora, ainda se estaria a rir.
Eu também me ri, mas apenas no final. Depois de ter feito mais de metade da descida arrastado pela bike, segurando como podia no selim só com uma mão enquanto a outra barafustava em círculos no ar, desesperadamente tentando manter o equilíbrio do restante corpo, ao mesmo tempo que de pés a arrastar pelo pedregoso chão, fui fazendo ski, em completo pânico, com a situação completamente fora de controlo até que a frente da bike bate numa pedra, torce toda para a esquerda e me joga a bike para as couves, permitindo desta forma imobilizar o comboio que descia louco ravina abaixo. Eu segui mais um metro ou dois, agora já sem o apoio da bike, de ski, acabando por ficar sentado no chão, de rabo flamejante de dor. Foi de costas para a descida, com a bike tombada sobre o flanco, imóvel e já na base daquela demoníaca parede que me deixe estar sentado por um pedaço, enquanto fumava um cigarro e comia mais um mini-chocolate.

Depois disto pouco havia que me poderia impedir de chegar a Sagres. Cheguei a dizer em alto e bom som, que nem que partisse um crank, haveria de arrastar a bicicleta até às quentes e finas areias do meu destino final.

Uma descida de loucos…

A fotografia da parede ainda a massajar o rabo nas pedras…

O caminho que ia ficando para trás. Sagres cada vez mais perto…

O tempo ia passando fugidio, enquanto eu me divertia neste sobe e desce constante. De subidas longas e morosas a descidas curtas e técnicas mas sempre com vistas de encher as medidas a qualquer um. Sentia-me privilegiado por poder ter este pequeno tempo de qualidade só para mim, de poder usufruir dele inteiro. Sem meio-termo, um acto perfeito de egoísmo, que não me importa de admitir visto que preciso dele como pão para a boca, como ar!
Sou um ser sociável, mas esta solidão desejada, esta tranquilidade permite-me pensar, permite-me ouvir os desejos mais íntimos do meu coração no que refere à minha pessoa, e é tão imprescindível para mim que chega a doer fisicamente.
As minhas vontades, os meus desejos, as minhas reais necessidades e não aquelas que me são impostas por uma sociedade hostil, consumista e influenciadora, chegam-me de uma forma mais clara, transparente muitas vezes.
A natureza consegue ser o catalisador, o portal de acesso ao meu eu… É quem me permite a entrada nos mais recônditos e escondidos lugares da minha consciência, sempre me ensinando quem sou, como sou, do que sou feito e do que é preciso para levar de vencido este esqueleto.
Desde há muitos anos que a natureza tem sido a minha melhor professora e hoje estava a ser mais um dia na escola. Um dia de exames, para ser mais preciso.

A hora do almoço aproximava-se veloz e foi num pinhal, recheado de belas e convidativas sombras, que devorei o que me restava de comida. Um mini-chocolate para abrir o apetite, uma “powerbar” de “banana flavour” horrível e que mesmo com fome só consegui trincar metade, terminando em beleza com mais um chocolate e os restantes amendoins que vinha petiscando desde a roulotte na praia do Amado, onde os comprei.
Sentia já nas narinas o vago cheiro da conquista final e apesar de até ali as coisas terem corrido pelo melhor, temia ainda pelo material que já apresentava alguns sinais de desgaste.
O suporte traseiro continuava hirto e firme. Já tinha cedido tudo o que tinha para ceder e já há uns quilómetros que deixara de me preocupar de cada vez que o ouvia roçar na roda.
Preocupava-me agora mais o facto das minhas pastilhas traseiras há muito terem pedido reforma. Estavam nas lonas e certamente não aguentariam até final.
As pastilhas da frente estavam pelo mesmo caminho. Embora mais frescas estavam agora a ser muito mais solicitadas desde que me apercebera do gasto anormal que as de trás vinham a sofrer. O peso extra e o contínuo uso dos travões em todas as descidas vinha-se a mostrar caro, mas não haveria outra forma. A segurança sempre esteve no topo das prioridades.

“Devia ter-me lembrado deste pormenor antes e ter trazido um par extra.” – Lembro-me de pensar.

Mas agora já nada havia a fazer e a par com mais uns quantos barulhos dos cansados e secos pivots da escora, o conjunto seguia imparável, rumo ao destino final, passados trinta minutos depois de ali chegar.


Ouro puro. Trigo ondulante ao sabor da brisa…

Hora de almoço, a fritar da cabeça…

Depois de mais umas curvinhas aqui e ali, depois de mais uns bosques de pinhal ajudando ao caminho com as suas sombras e por uns velozes caminhos de terra vermelha chegamos rapidamente á zona que para mim se mostrou como o ex-líbris de toda a aventura. Os trilhos que levam até à praia do Castelejo foram alucinantes. Assim que lhes deitei o olho foi algo que me deixou verdadeiramente extasiado. Qualquer coisa de brutal, com uma paisagem brutal, ficou sem margem para enganos como um dos meus melhores momentos em cima da minha btt.
Descer aquele “single” até lá abaixo foi um luxo e uma maluqueira que não resisti. Não me iria perdoar se viesse de tão longe para ali deixar a marca da sola dos meus sapatos ao invés da trilha dos meus pneus.
No entanto, os metros inicias da primeira descida tiveram que ser superados desse modo, já que a inclinação lateral do trilho não me deixava manter a traseira no sitio, estando constantemente a escorregar no xisto que se desfazia debaixo dos pneus, quando tocava nos travões…

A vista, essa, era absolutamente fantástica, alucinante…
O cenário ideal.


Praia da Cordoama...

Um luxo de trilhos, preciosos…

Piso instável e imprevisível…

Uma delícia…

A subida que se seguiu foi a ultima da jornada. Em óptimo asfalto, serpenteando encosta acima, fazendo com que os músculos entrassem de novo numa cadência suave, ritmada e tranquila. O corpo parecia que só sabia andar de bicicleta, fazia-o sem esforço, sem acusar demasiado o cansaço de todos os quilómetros e desnível acumulados, reagia de bom agrado a mudanças de velocidade inclusive. O ananás há muito que tinha encontrado a sua posição em cima do rijo selim e só se queixava nas maiores porradas, andando anestesiado a maior parte das tiradas.
Não tinha acusado ainda uma única cãibra, longe disso. O meu joelho estava em perfeitas condições e todas as dores que tinha tido até ali resumiam-se mesmo ao dorido traseiro.

Cheirava a conquista no ar como cheira o perfume de quem se ama. Entrava-me pelas narinas, carregava-me os pulmões e queimava. O oxigénio que inspirava parecia não chegar para saciar a sede que tinha de ver Sagres, enquanto a subida que tinha pela frente parecia não ter fim.
A pequena placa não deixara margem para equívocos. 10%! Acusava a dita.
E assim fui, inicialmente pujante para terminar espremendo por completo a avozinha, mas subindo metro após metro até entrar de novo nos estradões de pinhal para depois, ao largar a linha de eólicas, avistar à esquerda perdida ainda ao longe a tão ansiada vila.

Sagres estava ali, ao virar da esquina.
Já lá estava, quase que lhe tocava. Tinha conseguido e estava finalmente a chegar ao destino, com quatro dias de pó, suor e muitas aventuras pelo caminho!


Sagres ao virar da esquina…

Praia do Beliche…

Mais estradões cheios de pedra, que ignoro totalmente com o rabo e “pivots” a gritar de dor, até que chego à praia do Beliche, local onde apanho a ciclovia do Algarve. Aqui ia já num estado de ânimo que não saberia bem identificar, mesmo que quisesse. Um misto de sensações e emoções me passavam já pelos meandros da memória ainda nem tinha terminado, lembranças de situações assaltavam-me, fazendo-me sentir algo nostálgico já, uma mescla de experiencias sensitivas que varreu todo o espectro da escala…

Estava a terminar uma das viagens que mais prazer me tinha dado realizar. Foi talvez uma das sensações para a qual estava menos preparado. Muito menos do que para a dureza do percurso.

Fui desperto destes pensamentos quando avistei a Fortaleza de Sagres. Sabia que a praia da Mareta ficava já ali ao lado e na realidade, em pouco menos de cinco minutos andava por cima das areias da praia dourada praia, banhada por águas tão límpidas que parecem artificiais, palco de outras tantas aventuras mais mediáticas, mas que agora assistia, silenciosa, à minha vitória pessoal.

Ao meu pedido de “foto, please” o casal inglês, já velhote, atendeu sem cerimónias e foi só depois desta pequena tarefa cumprida que me larguei a navegar por aquele mar afora, em pensamentos claro!


Fortaleza de Sagres, no final da jornada…

Fim da linha. Na base da falésia descansam as areias da Mareta…

Destino à vista, 300kms depois…

A fotografia da praxe…

Depois de uns largos minutos passados a descansar na praia acabo por regressar ao largo da Praça da República onde tinha combinado com a Rita pelas 16h00. Pouco passava das 14h00 quando aqui cheguei e depois do tempo gasto em “contemplação” à beira-mar fui procurar algum sítio para comer, pois estava com uma fome de gigante.
Dou-lhe uma apitadela. Estava a vinte minutos dali. Ligo também para casa dos meus pais a relatar o sucesso da jornada!

O hambúrguer ainda não tinha pousado na mesa já a Catita tinha chegado, acabando por me fazer companhia nesta minha humilde comemoração de vitória… Uma refeição decente com um brinde no final. Ouro sobre azul!

Ainda antes de levantarmos ferro rumo a casa, revejo Irún, que aparentemente seguiu o meu conselho de visitar Sagres, embora aqui pouco tenhamos falado. Já tinha falado nele à Rita, porque ela estava comigo quando o vimos na Costa, mas ele não se mostrou muito à vontade e foram rápidas as despedidas…

Como epílogo desta brincadeira posso apenas dizer que guardo o tesouro mais importante que posso.
As memórias das experiências e das sensações durante estes dias de privação mas de supremo prazer. Guardo também a vontade que tenho já de repetir a brincadeira, desta feita com amigos para desfrutar de uma outra forma da experiência…
Para partilhar algo que senti como sendo fantástico, digno de ser realizado, de ser aproveitado, uma vez que está aí, desejoso de se mostrar, disponível para contemplar os mais ousados dos viajantes com algo que jamais esquecerão.

Resumo da etapa
Hora saída: 08H00
Distancia: 64.1km
Tempo total: 06H38
Tempo movimento: 05H10
Velocidade media: 12.4km/h
Velocidade máxima: 37.5km/h
Acumulado de subidas: 1060m
Acumulado de descidas: 1191m



(FIM)