" Travessia do Sul "
Um aventura em solitário por trilhos e caminhos do sul de Portugal.
17 De Maio 2009
Aljezur – Sagres
A última e mais aguardada tirada do meu passeio começou cedo. Depois de
paga a despesa da estadia na tarde anterior, à saída dos portões do
parque o relógio marcava as 08h05.
Os primeiros quilómetros foram pachorrentos, de ritmo calmo e compassado
até à grande descida, que fiz tranquilamente agarrado aos travões,
empurrado pelos quase 20kg de peso da minha menina.
Á semelhança do dia anterior rumei ao Castelo, trepando toda aquela
empinada rua de empedrado, passando novamente pela igreja e seguindo
adiante, parando ofegante a 20m do final, já completamente encharcado em
suor, ardendo de calor.

Castelo de Aljezur ao longe…

Aqui já mais perto, mas comigo já apeado…

As vistas que tinha agora sobre Aldeia Nova…
Por uns estradões rápidos fui ganhando quilómetros e ritmo. O dia, à
semelhança de todos os outros brindava-me a manha com um esplêndido céu
azul, polvilhado de vez em quando com pequenos farrapos de algodão
branco…
A mesma brisa, fiel, que me acompanhava há dias, continuava arrefecendo e mantendo dócil o quente dia.

Pelas 09h30 já cheirava a Algarve…
A determinada altura e depois de uma pequena elevação surgem magnificas
as linhas de espuma brancas a recortar a acidentada costa contra uma
paisagem de azul a perder no horizonte.

Na chegada à costa e ao mar…

Toda uma paisagem sublime...
À medida que me ia aproximando da costa o terreno ia ficando com desníveis cada vez mais acentuados.
Por várias vezes durante o dia me veria a descer à cota 0 para depois
voltar a conquistar muitos metros verticais às paragens daquela zona… Um
sobe e desce constante que já não seria fácil numa jornada de btt sem
peso excessivo na traseira, junto com umas pastilhas do travão traseiro,
essas sim, a roçar a exaustão…
No entanto todo um mundo novo se ia mostrando espectacular, abafando as
dores nas pernas que já pontuavam cada pedalada fora da cadência. A
minha mente viajava mais depressa que as minhas cansadas pernas,
deitando-se a adivinhar as paisagens e os trilhos que se seguiriam, mas
sempre perdendo no que toca a originalidade das cores e formas, no que
toca aos caprichosos cheiros e sons, no que refere às sensações que pode
proporcionar a alguém que assim o deseje, que assim o anseie.

Zonas completamente desabitadas…

Vales de beleza discreta…
Não foi rápida a chegada à Carrapateira, mas foi soberba a curta viagem.
Tinha valido cada minuto das duas horas de pedal que já trazia quando
pelas 10h05 entrei na vila da Carrapateira, onde contava tomar o café da
manha, coisa que pela hora matutina e percurso escolhido não me tinha
sido possível tomar ainda. Além de que vinha a contar com um café na
entrada da vila que também se encontrava fechado.
A praia da Carrapateira providenciou das melhores vistas, daquelas que
nos fazem perder o sentido do tempo e nos carregam embalados pela beleza
e singularidade do momento.
Calmamente, aproveitando cada segundo de deleite, vou subindo o pequeno
troço alcatroado que me eleva acima do ombro norte da praia. Uma enorme
duna de areia cortada por uma estreita tira cinzenta, escaldante sob o
sol que subia ligeiro no céu azul.
A paisagem era sublime.
O mar reflectia um azul intenso, escuro. Rebelde. Debatia-se na orla
costeira com evidente fulgor, para evidente gosto dos surfistas que nas
suas ondas desenhavam leques de água e se deixavam apanhar por elas para
depois, muito rápidos, lhes escapar acelerando, para logo depois
executarem novo leque de água à saída do tubo e assim sucessivamente até
esta perder força ou o surfista perder o jogo e cair da sua prancha.
Onde todos naturalmente se voltavam a agarrar para de novo tentarem a
sua sorte, independente do sucesso ou fracasso anterior. Está à vista de
todos que o que interessa mesmo no final não é ganhar ou perder, mas
sim as vivências que vamos tirando desse caminho que se percorre. Os
surfistas nas suas ondas como todos nós na vida… Só não vê quem não
quer.

Á entrada da vila da Carrapateira…

Uma subidinha que pouco ou nada custou devido às compensadoras vistas…

Carrapateira…

Mais do mesmo. Um lindo dia, com uma bela paisagem…
Pelas narinas entrava-me um cheiro inebriante a mar, a sal. Àquela
maresia tão própria das costas violentas, inóspitas, que fica no ar
depois das ondas se debaterem contra as escarpadas falésias, investida
após investida, selvagens.
Depois de uma curva no caminho a natureza volta a suplantar a minha
poderosa imaginação, situação aliás habitual mas que me agrada
enormemente.
Toda ela uma bênção para os olhos.
Desde a zona dos viveiros, ou costa dos percebes, ali à beirinha daquele
enorme azul que se extinguia apenas onde a vista alcançava, estava uma
linha de costa que teria que contornar. Este pedaço de percurso
deixou-me bêbado com tanta luz, com tanto para ver, daquelas vistas
iguais aos postais pirosos que vemos à venda para turistas, deixando-me
num estado de espírito que muito dificilmente encontraria palavras que o
conseguissem descrever de forma conveniente e fiel.

Uma curva no caminho…

Reservava estas vistas para sul…
Uma costa fabulosa…

Cheia de pequenas pérolas…
A praia do Amado, onde bebi o tão ansiado café numa roulotte que por lá
estava estacionada, surgiu tranquilamente no final de uma curta descida.
Até um geladinho comi aqui enquanto fazia um breve descanso… Voltei a
carregar de água, mais 1,5l. Desde as 08h00 da manhã já tinha bebido
mais de um litro de água. Sim porque a garrafa entrou inteira para
dentro do CamelBak, não sobrando uma gota no recipiente original uma vez
finalizado o processo.
Faltavam quinze minutos para as onze da manha quando me pus de novo ao
caminho. Ainda não o sabia mas estaria prestes e enfrentar os mais duros
quilómetros de toda a jornada e refiro-me à jornada completa.
Em parte alguma do percurso tinha tido que me aprumar tanto em cima da
burra, mesmo quando a empurrava e puxava, ou me via quase a perder-lhe o
controlo, como aconteceu algumas vezes antes. As dificuldades que se
seguiram foram as mais sérias. Embora algumas me tenham feito sentar o
rabo no chão a rir sozinho depois de ultrapassadas, outras houve que me
deixaram pequenino, pequenino, durante os minutos seguintes. Outras,
verdadeiro mel para os sentidos.
E tudo isto num só dia de existência. Não havia eu de ficar moído no final…
Só que disto eu nada sabia ainda.
Destas dificuldades eu tinha somente uma vaga ideia, remota, de relatos
lidos na internet, de algumas fotografias que circulam nesse universo
paralelo ao nosso.
Haveria de me confrontar com elas, uma de cada vez, há medida que se me
iam mostrando. E é tão boa esta sensação da aventura, do mistério, da
adrenalina a correr forte nas veias, dos músculos vibrantes, de sentir o
espírito vivo e alma aberta ao mundo, verdadeiramente juntos num só…
Da liberdade completa e total.

Na praia do Amado, à espera do cafezinho…
Dois minutos depois de sair daqui estava num mundo distante. Num mundo
de trilhos alucinantes e vertiginosos, suspensos nas falésias a largos
metros da fina areia da praia. Trilhos pedestres pendurados em encostas
demasiado inclinadas para permitirem sequer um erro, uma desatenção. Com
inclinações tais que me cheguei a ver obrigado a ir a pé porque o crank
esquerdo batia na pendente de terra empurrando-me para fora, para a
direita e para o vazio. Não foi mais fácil ir a pé mas foi
definitivamente mais seguro, já que assim se algo caísse seria só a
minha menina, ao contrário do que aconteceria na primeira hipótese. No
entanto antes da curva que desaparecia no topo da falésia já esmagava
novamente os pedais…
Trilhos na praia do Amado…

Tomei o café ali em cima…

Depois de sair das areias. Visível o trilho que corta diagonalmente a encosta…

Do melhor…

Lindo, lindo, lindo! Mas estranhamente assustador…
Depois de ultrapassada a parte mais inclinada voltei a segurar a guiador
entre as mãos, mas desta feita de rabo sentado no selim e apenas voltei
a desmontar porque ainda mantenho aquele espírito de auto-preservação,
natural a todos os seres vivos, e que felizmente me mantém capaz de
ajuizar correctamente algumas situações, embora nem todas deva admitir.
O trilho corria sinuoso bem no topo da falésia. Exposto.
Noto num relance que a minha passagem naquele ermo caminho não tinha
sido noticiada por ninguém das poucas pessoas que se passeavam na beira
da areia molhada.
Durante aquele espaço de tempo, o mundo pareceu realmente parar. Já
havia experimentado esta sensação antes, na montanha, em situações de
compromisso semelhantes. Aliás foi como encarei o obstáculo, como uma
passagem mais técnica de montanha, que teria que vencer sem outro
desfecho possível.
De repente só ouvimos o nosso coração, o nosso suor enquanto nos molha a fronte e nos diz: “Tu consegues!”.
Tudo à volta se imobiliza num suspiro de silêncio enquanto nós tomamos
as acções que temos que tomar, sem raciocinar em demasia, deixando pouca
margem de manobra ao cérebro para nos baralhar os instintos, para nos
confundir com dúvidas e incertezas.
De músculos tensos, com todos os sentidos alerta, e depois de encher de
ar o peito duas vezes, como quem ganha coragem, enfrento então esse
pequeno pedacito de caminho, mas que pelas condições que apresentava
reunia tudo para me fazer satisfazer as minhas mais básicas
necessidades.

Para mim a parte mais complicada devido ao estado do trilho, parcialmente destruído, e que me obrigou novamente a desmontar…

A uma altura pouco aconselhada a um deslize é melhor não facilitar…

Vistas de arrepiar...

E para compensar do esforço lá estavam sempre as preciosas vistas…

A subir muitos metros seguidos desde a cota 0 novamente…
Entretanto, as cores e cheiros do mundo que me rodeavam eram, por si só,
capazes de me fazer esquecer a dureza dos quilómetros que ia acumulando
nas perninhas. Felizmente que o piso se mantinha capaz de boas médias,
permitia rolar mais ou menos rápido, consoante o motor deste binómio
assim o conseguia.
De qualquer forma, os trilhos não eram só caminhos fáceis. Esta foi a
jornada que mais me obrigou a navegar atento ao GPS, obrigando-me muitas
vezes a perscrutar o caminho a pé, antes de me fazer a ele,
principalmente quando não lhe via o final, ou como em algumas partes
houve, que por metros o trilho desaparecia para ir surgir mais à frente
perdido no mato rasteiro de mil e uma cores.
Parava, desmontava, ia ver do caminho. Voltava atrás, pegava na bicicleta e lá me fazia ao caminho, como e por onde podia.
Assim foi acontecendo até determinada altura em que me surge pela frente uma descida que dificilmente esquecerei tão cedo.
Fiquei parado no topo alguns minutos, no “vai-não-vai”, tentando
analisar se tinha capacidades de o fazer montado, em segurança.
Não tenho por hábito desmontar em descidas, mas esta assim o obrigou, e
em boa hora tomei tal opção. O que se passou a seguir foi, sem margem
para dúvidas, o momento mais cómico de toda a odisseia. A estar alguém a
ver e por certo que, por esta hora, ainda se estaria a rir.
Eu também me ri, mas apenas no final. Depois de ter feito mais de metade
da descida arrastado pela bike, segurando como podia no selim só com
uma mão enquanto a outra barafustava em círculos no ar, desesperadamente
tentando manter o equilíbrio do restante corpo, ao mesmo tempo que de
pés a arrastar pelo pedregoso chão, fui fazendo ski, em completo pânico,
com a situação completamente fora de controlo até que a frente da bike
bate numa pedra, torce toda para a esquerda e me joga a bike para as
couves, permitindo desta forma imobilizar o comboio que descia louco
ravina abaixo. Eu segui mais um metro ou dois, agora já sem o apoio da
bike, de ski, acabando por ficar sentado no chão, de rabo flamejante de
dor. Foi de costas para a descida, com a bike tombada sobre o flanco,
imóvel e já na base daquela demoníaca parede que me deixe estar sentado
por um pedaço, enquanto fumava um cigarro e comia mais um
mini-chocolate.
Depois disto pouco havia que me poderia impedir de chegar a Sagres.
Cheguei a dizer em alto e bom som, que nem que partisse um crank,
haveria de arrastar a bicicleta até às quentes e finas areias do meu
destino final.
Uma descida de loucos…

A fotografia da parede ainda a massajar o rabo nas pedras…

O caminho que ia ficando para trás. Sagres cada vez mais perto…
O tempo ia passando fugidio, enquanto eu me divertia neste sobe e desce
constante. De subidas longas e morosas a descidas curtas e técnicas mas
sempre com vistas de encher as medidas a qualquer um. Sentia-me
privilegiado por poder ter este pequeno tempo de qualidade só para mim,
de poder usufruir dele inteiro. Sem meio-termo, um acto perfeito de
egoísmo, que não me importa de admitir visto que preciso dele como pão
para a boca, como ar!
Sou um ser sociável, mas esta solidão desejada, esta tranquilidade
permite-me pensar, permite-me ouvir os desejos mais íntimos do meu
coração no que refere à minha pessoa, e é tão imprescindível para mim
que chega a doer fisicamente.
As minhas vontades, os meus desejos, as minhas reais necessidades e não
aquelas que me são impostas por uma sociedade hostil, consumista e
influenciadora, chegam-me de uma forma mais clara, transparente muitas
vezes.
A natureza consegue ser o catalisador, o portal de acesso ao meu eu… É
quem me permite a entrada nos mais recônditos e escondidos lugares da
minha consciência, sempre me ensinando quem sou, como sou, do que sou
feito e do que é preciso para levar de vencido este esqueleto.
Desde há muitos anos que a natureza tem sido a minha melhor professora e
hoje estava a ser mais um dia na escola. Um dia de exames, para ser
mais preciso.
A hora do almoço aproximava-se veloz e foi num pinhal, recheado de belas
e convidativas sombras, que devorei o que me restava de comida. Um
mini-chocolate para abrir o apetite, uma “powerbar” de “banana flavour”
horrível e que mesmo com fome só consegui trincar metade, terminando em
beleza com mais um chocolate e os restantes amendoins que vinha
petiscando desde a roulotte na praia do Amado, onde os comprei.
Sentia já nas narinas o vago cheiro da conquista final e apesar de até
ali as coisas terem corrido pelo melhor, temia ainda pelo material que
já apresentava alguns sinais de desgaste.
O suporte traseiro continuava hirto e firme. Já tinha cedido tudo o que
tinha para ceder e já há uns quilómetros que deixara de me preocupar de
cada vez que o ouvia roçar na roda.
Preocupava-me agora mais o facto das minhas pastilhas traseiras há muito
terem pedido reforma. Estavam nas lonas e certamente não aguentariam
até final.
As pastilhas da frente estavam pelo mesmo caminho. Embora mais frescas
estavam agora a ser muito mais solicitadas desde que me apercebera do
gasto anormal que as de trás vinham a sofrer. O peso extra e o contínuo
uso dos travões em todas as descidas vinha-se a mostrar caro, mas não
haveria outra forma. A segurança sempre esteve no topo das prioridades.
“Devia ter-me lembrado deste pormenor antes e ter trazido um par extra.” – Lembro-me de pensar.
Mas agora já nada havia a fazer e a par com mais uns quantos barulhos
dos cansados e secos pivots da escora, o conjunto seguia imparável, rumo
ao destino final, passados trinta minutos depois de ali chegar.

Ouro puro. Trigo ondulante ao sabor da brisa…

Hora de almoço, a fritar da cabeça…
Depois de mais umas curvinhas aqui e ali, depois de mais uns bosques de
pinhal ajudando ao caminho com as suas sombras e por uns velozes
caminhos de terra vermelha chegamos rapidamente á zona que para mim se
mostrou como o ex-líbris de toda a aventura. Os trilhos que levam até à
praia do Castelejo foram alucinantes. Assim que lhes deitei o olho foi
algo que me deixou verdadeiramente extasiado. Qualquer coisa de brutal,
com uma paisagem brutal, ficou sem margem para enganos como um dos meus
melhores momentos em cima da minha btt.
Descer aquele “single” até lá abaixo foi um luxo e uma maluqueira que
não resisti. Não me iria perdoar se viesse de tão longe para ali deixar a
marca da sola dos meus sapatos ao invés da trilha dos meus pneus.
No entanto, os metros inicias da primeira descida tiveram que ser
superados desse modo, já que a inclinação lateral do trilho não me
deixava manter a traseira no sitio, estando constantemente a escorregar
no xisto que se desfazia debaixo dos pneus, quando tocava nos travões…
A vista, essa, era absolutamente fantástica, alucinante…
O cenário ideal.

Praia da Cordoama...

Um luxo de trilhos, preciosos…

Piso instável e imprevisível…

Uma delícia…
A subida que se seguiu foi a ultima da jornada. Em óptimo asfalto,
serpenteando encosta acima, fazendo com que os músculos entrassem de
novo numa cadência suave, ritmada e tranquila. O corpo parecia que só
sabia andar de bicicleta, fazia-o sem esforço, sem acusar demasiado o
cansaço de todos os quilómetros e desnível acumulados, reagia de bom
agrado a mudanças de velocidade inclusive. O ananás há muito que tinha
encontrado a sua posição em cima do rijo selim e só se queixava nas
maiores porradas, andando anestesiado a maior parte das tiradas.
Não tinha acusado ainda uma única cãibra, longe disso. O meu joelho
estava em perfeitas condições e todas as dores que tinha tido até ali
resumiam-se mesmo ao dorido traseiro.
Cheirava a conquista no ar como cheira o perfume de quem se ama.
Entrava-me pelas narinas, carregava-me os pulmões e queimava. O oxigénio
que inspirava parecia não chegar para saciar a sede que tinha de ver
Sagres, enquanto a subida que tinha pela frente parecia não ter fim.
A pequena placa não deixara margem para equívocos. 10%! Acusava a dita.
E assim fui, inicialmente pujante para terminar espremendo por completo a
avozinha, mas subindo metro após metro até entrar de novo nos estradões
de pinhal para depois, ao largar a linha de eólicas, avistar à esquerda
perdida ainda ao longe a tão ansiada vila.
Sagres estava ali, ao virar da esquina.
Já lá estava, quase que lhe tocava. Tinha conseguido e estava finalmente
a chegar ao destino, com quatro dias de pó, suor e muitas aventuras
pelo caminho!

Sagres ao virar da esquina…

Praia do Beliche…
Mais estradões cheios de pedra, que ignoro totalmente com o rabo e
“pivots” a gritar de dor, até que chego à praia do Beliche, local onde
apanho a ciclovia do Algarve. Aqui ia já num estado de ânimo que não
saberia bem identificar, mesmo que quisesse. Um misto de sensações e
emoções me passavam já pelos meandros da memória ainda nem tinha
terminado, lembranças de situações assaltavam-me, fazendo-me sentir algo
nostálgico já, uma mescla de experiencias sensitivas que varreu todo o
espectro da escala…
Estava a terminar uma das viagens que mais prazer me tinha dado
realizar. Foi talvez uma das sensações para a qual estava menos
preparado. Muito menos do que para a dureza do percurso.
Fui desperto destes pensamentos quando avistei a Fortaleza de Sagres.
Sabia que a praia da Mareta ficava já ali ao lado e na realidade, em
pouco menos de cinco minutos andava por cima das areias da praia dourada
praia, banhada por águas tão límpidas que parecem artificiais, palco de
outras tantas aventuras mais mediáticas, mas que agora assistia,
silenciosa, à minha vitória pessoal.
Ao meu pedido de “foto, please” o casal inglês, já velhote, atendeu sem
cerimónias e foi só depois desta pequena tarefa cumprida que me larguei a
navegar por aquele mar afora, em pensamentos claro!

Fortaleza de Sagres, no final da jornada…

Fim da linha. Na base da falésia descansam as areias da Mareta…

Destino à vista, 300kms depois…

A fotografia da praxe…
Depois de uns largos minutos passados a descansar na praia acabo por
regressar ao largo da Praça da República onde tinha combinado com a Rita
pelas 16h00. Pouco passava das 14h00 quando aqui cheguei e depois do
tempo gasto em “contemplação” à beira-mar fui procurar algum sítio para
comer, pois estava com uma fome de gigante.
Dou-lhe uma apitadela. Estava a vinte minutos dali. Ligo também para casa dos meus pais a relatar o sucesso da jornada!
O hambúrguer ainda não tinha pousado na mesa já a Catita tinha chegado,
acabando por me fazer companhia nesta minha humilde comemoração de
vitória… Uma refeição decente com um brinde no final. Ouro sobre azul!
Ainda antes de levantarmos ferro rumo a casa, revejo Irún, que
aparentemente seguiu o meu conselho de visitar Sagres, embora aqui pouco
tenhamos falado. Já tinha falado nele à Rita, porque ela estava comigo
quando o vimos na Costa, mas ele não se mostrou muito à vontade e foram
rápidas as despedidas…
Como epílogo desta brincadeira posso apenas dizer que guardo o tesouro mais importante que posso.
As memórias das experiências e das sensações durante estes dias de
privação mas de supremo prazer. Guardo também a vontade que tenho já de
repetir a brincadeira, desta feita com amigos para desfrutar de uma
outra forma da experiência…
Para partilhar algo que senti como sendo fantástico, digno de ser
realizado, de ser aproveitado, uma vez que está aí, desejoso de se
mostrar, disponível para contemplar os mais ousados dos viajantes com
algo que jamais esquecerão.
Resumo da etapa
Hora saída: 08H00
Distancia: 64.1km
Tempo total: 06H38
Tempo movimento: 05H10
Velocidade media: 12.4km/h
Velocidade máxima: 37.5km/h
Acumulado de subidas: 1060m
Acumulado de descidas: 1191m
(FIM)